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5 de dezembro de 2010

30 anos perdidos


É engraçado que quando os partidos de direita necessitam de encontrar consenso para as suas orientações e justificarem a convergências das suas políticas, aproveitam o misterioso caso Camarate para apelarem à união dos portugueses em torno desse projecto que acreditam ser o ideal para Portugal.
Não deixa de ser curioso que quando o PSD procura um apoio forte e incondicional da sociedade portuguesa, intitula-se como único detentor da legitimidade para reclamar o legado de Sá Carneiro, prometendo prosseguir com a aquilo que considera ser o seu ideal de democracia.
Eu não conheci Sá Carneiro, e se hoje conheço, foi por aquilo que fui lendo acerca de tão carismática personagem. Não creio que, se hoje ainda vivesse, fosse muito diferente dos políticos que temos hoje. Não creio que o seu modelo de sociedade se diferenciasse muito do que hoje vivemos e que derivou do protagonismo dos seus sucessores, também eles indefectíveis seguidores, apadrinhadores e defensores da visão política do defunto líder.
Tivesse sido ou não diferente, certo é que não aconteceu, apesar das vezes em que passaram pelo poder aqueles que hoje se inspiraram por ele. Se dizem que o país estaria muito melhor, se fosse conduzido por Sá Carneiro, então muitos falharam por completo na tentativa de o construir.
Quanto ao caso propriamente dito, e passados 30 anos sobre o acidente, é pena que nada se tenha decidido até aqui, muito por culpa da nossa justiça, e apesar das inúmeras comissões de inquérito criadas para esse efeito. Agora, talvez para capitalizar a sua posição e daí extrair dividendos, vem o governo dizer que é possível surgir uma nova comissão de inquérito para tentar esclarecer de uma vez por todas o imbróglio em que transformou o caso de Camarate. Se vai resolver alguma coisa não sei, mas tenho a sensação de que, tal como as outras, a próxima comissão só vai contribuir para adensar ainda mais o problema, não trazendo nada de novo àquilo que ao outras já apuraram, adivinhando-se, por isso, intermináveis sessões em busca de um só indício que seja, capaz de acender a tal luzinha que todos buscam, só para arranjar algo suficientemente credível para que, ao menos desta vez, a culpa não morra solteira, se é que alguma vez houve culpa.

28 de maio de 2010

E se Sá Carneiro ainda vivesse?


A prova de que Cavaco Silva não teme as consequências da sua decisão sobre uma matéria tão sensível como o casamento gay, está precisamente na opção em promulgar a lei que o autoriza. Confesso que, perante a forma quase servil com que recebeu o Papa Bento XVI, não me espantaria que por ele fosse vetada uma das leis que mais dividiu os portugueses nos últimos tempos. Não creio que a sua actuação fosse a de ceder à tentação de piscar o olho a uma esquerda laica, com o objectivo de alcançar uma vitória nas próximas eleições presidenciais, nem tão pouco acredito que o seu objectivo fosse o de azedar as suas relações com a direita conservadora e com a igreja de que tanto gosta. Apenas terá chegado à conclusão, que não valeria a pena tentar impedir o inevitável evoluir de uma sociedade que se diz e quer ser progressiva e europeia. Curiosamente, no meio de todo este divergir de opiniões, os que mais criticam a decisão, são aqueles que mais se reveêm em Sá Carneiro, curiosamente um dos mais progressistas políticos do nosso país, nada dado a essas coisas da moral cristã ou da inquebrantável natureza do casamento católico.