8 de fevereiro de 2012

Assumidamente piegas

Por muito que nos tenha custado a todos, o primeiro-ministro mais não disse do que a verdade sobre nós próprios. De facto, somos um Povo sofrido e lamechas. Sabemos que durante toda a nossa história, sempre fomos mais dominados do que dominadores. Sempre fomos donos do nosso destino pelas piores razões, pois nunca tivemos um Estado que soubesse como nos conduzir ao progresso e ao verdadeiro desenvolvimento.
Somos um Povo que vive na sombra e à sombra de um passado glorioso que fez de nós donos de metade do mundo, e que agora nos sujeitamos às regras daqueles que aproveitaram a nossa coragem e ousadia.
Não soubemos administrar, em proveito próprio, as riquezas que conquistámos, quase sempre com a nossa humildade e simpatia. Todos os territórios que administrámos, foram o espelho da nossa bravura, do nosso empreendedorismo e da nossa enorme capacidade de adaptação. Criámos belas cidades, verdadeiramente cosmopolitas, que rivalizavam com qualquer cidade europeia, enquanto que na metrópole, aquela onde ficaram as nossas raízes, o Povo continuava a definhar na lama da pobreza com que os nossos governantes achavam que nos deveriam tratar. "Livro-vos da guerra mas não da fome", já dizia Salazar, ele próprio um português beirão, pouco dado a viagens e a extravagâncias próprias de quem, já na altura, armazenava uma das maiores reservas de ouro do mundo, enquanto o Povo se lamentava.
Custa-me aceitar que tenhamos sido ruinosamente regidos pelos ingleses, abusivamente desgovernados pelos espanhóis, e escandalosamente reprimidos por uma ditadura que durou 41 anos, mas com qual ainda nos identificamos.
Claro que somos piegas, amigos do fado e do fardo, amantes do biscate e do desenrasque, amigos do copo e do tapa, companheiros no jogo e na tasca. Somos vaidosos e vistosos, egoístas e malabaristas, capazes de resolver qualquer situação, menos a nossa, sempre à espera do ensinamento dos outros, como se não tivéssemos a responsabilidade de sermos um Povo, com capacidade para liderar o nosso próprio destino.
Custa-me aceitar que o compromisso para com o nosso desenvolvimento e a crítica para com o nosso entorpecimento, só surjam quando, nada mais temos, para além de anos de privação.
Custa-me aceitar que, como Povo, apenas nos resta ganhar, gastar e esperar por alguém que nos obrigue a parar, para de novo aprendermos a projetar, a programar e a encarreirar.

1 comentário:

Anónimo disse...

fala por ti.